Autores: Dirceu Moreira e Eniete Ap. Mondoni Moreira
As respostas a estas perguntas, como diversas outras, foram feitas durante nossas palestras com pais e jovens e, faz parte de um programa denominado: A inclusão ao conhecimento é um direito de todos, que está contido no site: www.dirceumoreira.com.br, e como parte deste projeto disponibilizamos para as escolas e prefeituras uma palestra pública gratuita sobre: “Relacionamentos pais e filhos ou Cia. De Pais & Filhos Ilimitada”.
INTRODUÇÃO
“Os filhos são sempre oportunidades de reciclarmos etapas de nossa vida. Ser pais é uma jornada para sempre, em qualquer tempo e lugar”. Dirceu
Ser pais não é fazer ou determinar os caminhos para os filhos, mas dar lhes condições para façam os seus próprios. E nesta frase do sábio e grande mestre que foi o Prof. Henrique José de Souza está contida as ações que devem nortear nossas ações: “O mestre (neste caso os pais) apontam o caminho e o discípulo (filho) segue sozinho até encontrar novamente o Mestre (pais), mas desta vez, dentro de si mesmo”. Este potencial do “Pai dentro de cada pais”, é a essência de competência que acreditamos seja o que o prof Henrique esteja se referindo. Por isso acreditamos na competência dos pais, mesmo que por vezes atuem de forma incompetente. No entanto, a quem muito for dado, muito será cobrado. E nos que lidamos com o conhecimento, com a educação seremos, com certeza os mais cobrados. No entanto jamais iremos fazer pelo outro o que é de sua competência. A educação dos filhos é de responsabilidade dos seus pais, no entanto a escola será o elo de ligação com o conhecimento e já que a sociedade somos todos nós, que tal ao invés de encontrarmos bodes expiatórios, possamos compartilhar soluções, num grande mutirão nacional em prol da família.
De quem são as responsabilidades das questões que envolvem disciplina em sala de aula?
Disciplina e indisciplina parecem ser as duas palavras mais pronunciadas ultimamente e que provoca arrepios nos pais e professores. Disciplina quer dizer ordem, respeito, obediência e de certa maneira envolve aspectos formais envolvendo as normas, diretrizes, leis – que estão descritas em manuais, livros e na constituição. O lado informal da questão envolve as relações familiares e às vezes até escolar, quando não fica claro no regimento ou estatuto da escola. Não precisamos criar um código de leis dentro de casa, mas elas existem em todas as famílias e estão dissimuladas em forma de regras, que nem sempre estão claras e nem houve uma assembléia familiar para defini-las. Achamos que com as crianças de hoje até seria possível e democrático. Esta falta de clareza contida naquilo que conhecemos como o 4º mandamento (Honrar pai e mãe), pode ficar explicito, claro e compreensível para toda a família, não apenas para os pais. Estamos falando de família e não somente de responsabilidade do pai e da mãe, porque incorporá-la em nossa personalidade exige a prática deste pequeno. Querem um exemplo de uma regra subentendida? A mãe determina (disciplina) uma coisa e o pai faz outro. Isto gera confusão e conseqüentemente conflito, mas a criança aprende rapidamente a manipular seus pais. Experimente dirigir por uma rua onde os semáforos com o verde acima e vermelho abaixo, estejam invertidos ora numa esquina ora numa outra. Por que não podemos deixar estas regras bem claras dentro de casa, onde todos assumem responsabilidades de acordo com seu estado de consciência? Grande parte dos problemas disciplinares estariam resolvidos. Pare de achar que criança são irresponsáveis! Será que a atitude de uma criança de menos de cinco anos pode ser considerada indisciplina, quando pergunta insistentemente, como nos aconteceu com a filha de nossa amiga Mercedes: manhê eu posso ter cinco anos? A mãe cansada de tanto “aborrecimento” cedeu à persistência da filha e respondeu que sim. No dia seguinte Carolina chegou na escola e procurou o diretor e disse: Tio Juquinha minha mãe disse que eu posso ter cinco anos, então eu quero mudar de série (ir para o pré). Agora vamos falar um pouco mais objetivamente de situações reais e responder a uma pergunta cuja resposta teve seus ensaios no início deste artigo. Cremos que nos ajudará a compreender melhor esta dinâmica da família e, que têm contribuído para que hoje estivéssemos falando sobre disciplina, matéria essa que temos regularmente palestrado em escolas e compartilhando o assunto com os professores e pais.
Vocês haviam dito que existe um triangulo nesta questão que é fundamental para que possamos compreender a questão da indisciplina. Poderiam falar um pouco mais do funcionamento dele?
Acreditamos que esta questão é de fundamental importância. Na verdade nós temos três instâncias que norteiam as questões disciplinares: a família, a escola e a sociedade. Vamos responder primeiramente uma delas ou parte dela, porque está é a célula mater.
1. Trata-se da responsabilidade da família, portanto dos múltiplos papéis de ser pai/mãe. Tempos atrás até a década de 70 aproximadamente, de certa forma os pais mantinham autoridade disciplinar sobre sua prole, nem sempre de forma adequada, porém os acontecimentos sociais eram outros. Depois disto veio a febre dos especialistas, década de 80 aproximadamente, trazendo para si grande parte da responsabilidade em ensinar os pais como serem pais, muitos destes especialistas, aliás, nem o eram e nunca foram pais. Até ai tudo bem, pois é possível se dar bons conselhos mesmo não sendo pais, porque quem está de fora vê as coisas sob outro ângulo. O maior problema deste período foi a propagação do slogan de que ao dizer “Não”, aos filhos ou proibir, colocar limites provocava traumas irreversíveis. Advém então o Oba!Oba!.É proibido proibir. Tudo pode! Grande parte daqueles que são pais hoje fazia parte daquela geração, que têm dificuldade de estabelecer os limites, porque não aprenderam a lidar com eles. Assim diante de uma nova geração de crianças de inteligências aguçadas, que se apresentam ao mundo como sendo rebeldes, agitadas, muitas vezes confundidas como hiper-ativas, estabelece-se a confusão entre o limite e a liberdade, porque ambos devem ser respeitados. É bom lembrar que aliados a estes fatos, outros interagem de forma significativa neste cenário das relações familiares. Trata-se da emancipação da mulher na busca dos seus direitos de SER, aliou-se a isto outra necessidade que tumultuou este quadro, deixando-se a impressão de que a mulher estivesse abandonando seus filhos: o aspecto econômico e financeiro da família. Com isto a mulher teve que obrigatoriamente, sob pena de ver sua prole passar fome, a ir para a luta em busca de trabalho. Nós homens, não as devemos culpar por isso, salvo exceções daquelas que colocaram a profissão em primeiro lugar mergulhando sem saber no mundo competitivo do masculino, do qual elas não precisam copiar o modelo. Assim com quem ficaram os filhos? Quando tinham avós por perto, com eles. Menos mal. Quando não os tinham, ficavam com a vizinha. Diante desta realidade o governo se apercebendo da gravidade do problema cria as creches para receber estas crianças que passam a ficar ½ período ou período integral. Proliferam-se as escolinhas particulares que vai do berçário (digo do nascimento até...). Quantas crianças que hoje já são jovens ou adultos casados que não passaram grande parte de suas vidas dentro de uma destas creches? A maior gravidade de tudo isso estava na preparação destas segundas mães em acolher os filhos dos outros, e não apenas um. É recente o fato do governo se preocupar com a preparação destas profissionais, então surge a educação infantil e mais recentemente o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da educação Básica), trabalho que envolve uma participação ativa de educadores e principalmente da UNDIME (União Nacional de Dirigentes Municipais de Educação), parte deste fundo deve destinar-se às creches, porém ainda há muito que se fazer para consolidação destes direitos. A indisciplina não pode ser regida por lei como aquela proposta por uma deputada, regulamentado o que os pais devem ou não fazer, é pior do que os especialistas que se diziam saber tudo sobre relações pais e filhos e tiveram que voltar atrás, ou seja: tome de volta porque o filho é seu. Indisciplina é uma questão de reestruturação das três instâncias que começamos a falar. A família, a escola e a sociedade. Nós somos famílias, que vamos à escola onde têm famílias, e trabalhamos em empresas, freqüentamos a sociedade que é composta de pessoas que pertencem à uma família. Então de quem é mesmo a responsabilidade?
Não se preocupem, vem ai mais um daqueles “besteróis”, que nos qualificam de incompetentes como pais, é a SUPER NANI. A nova baba eletrônica, mais um modismo da televisão que irá resolver todos os seus problemas de relacionamento com seus filhos. Sabe qual é o diferencial: é que nem ela e nem eles irão viver e nem serão os pais de nossos filhos. Às vezes nos perguntamos onde está o ECA-Estatuto da Criança e Adolescente? A criança e jovens continuam expostos ao ridículo. Por que não existe um horário com programação na TV e rádio voltados para debater estes assuntos, como o fazem tantas horas com o futebol e outros programas?
Sempre podemos contar com a ajuda de alguém, mas que qualifiquem a competência e dom de sermos pais. Sempre quem está de fora percebe melhor o que está acontecendo e assim podem nos ajudar, mas quando se arrogam ao direito dos supremos especialistas, então deixou de ser ajuda para ser imposição. Parece uma espécie de síndrome de onipotência como acontece com os que vivem criticando a educação e seus profissionais, ao invés de se sentarem em uma sala de aula de uma escola, principalmente da periferia da grande S.Paulo e se propor a dar pelo menos um mês de aula. Quem sabe sairá de lá em condições reais de criticar, propondo novas ações de melhoria do ensino. Em algum momento, nos pais podemos ser incompetentes, mas não o somos a vida inteira.
Cada pai e mãe trazem potencialmente este dom e competência de criar filhos, mas entre jogar-se culpa neles, melhor seria olharmos para um sistema que requer como dissemos deste o início, um equilíbrio nas ações da estrutura família, escola e sociedade, porque pertencemos aos três. Não precisamos de pais sendo bodes expiatórios de “culpados”, mas de responsáveis pela criação dos filhos, e que o social através da ação de uma política e justiça social, possam disponibilizar o acesso ao conhecimento a todos. Não há maior erro e mal que se possa cometer contra o ser humano, do que lhes negar o direito ao saber. Este é o fruto da ignorância que a sociedade colhe, por não ter investido em educação.
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